Ações da Vigilância Ambiental incluem visitas domiciliares, uso de drones e liberação de wolbitos para evitar o avanço da doença no verão
A chuva que refresca o calor do verão pode esconder um perigo silencioso. Em poucos dias, a água acumulada em tampinhas esquecidas, calhas entupidas ou baldes deixados no quintal vira convite para a proliferação do Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue, da zika, da febre amarela e da chikungunya. No Distrito Federal, onde a doença apresenta comportamento sazonal entre outubro e maio, a atenção precisa ser redobrada.
Equipes da Vigilância Ambiental da Secretaria de Saúde (SES-DF) percorreram, no último mês, a quadra 508 de Samambaia Sul em uma ação de prevenção, com vistorias domiciliares e orientações aos moradores. A iniciativa permite mapear os índices de infestação e direcionar estratégias de combate ao vetor.
A agente de vigilância ambiental (Ava) Sofia Quaresma lembra que a dengue é endêmica no DF, mas ganha força no período chuvoso. “Muita gente acredita que a casa está limpa, mas um restinho de água em um balde, no ralo pouco usado ou até no motor atrás da geladeira já é suficiente para o mosquito se reproduzir. A visita serve para reforçar cuidados e mostrar pontos que o morador nem sempre percebe”, explica.
Durante a atividade, os agentes visitaram a casa de Conceição de Maria Araújo, 64 anos. No local, foram identificados recipientes com acúmulo de água da chuva, sendo que um deles apresentava larvas, que foram coletadas para análise. “É muito bom ter esses profissionais para nos orientar. Agora ficarei mais atenta”, afirma.
Para a chefe do Núcleo de Vigilância Ambiental de Samambaia, Giselle Melo, o enfrentamento da dengue depende diretamente da parceria com a população. “Costumo dizer que 50% do resultado vem do agente orientando e os outros 50%, do morador colocando em prática o que aprendeu. Separar alguns minutos da semana para olhar o quintal, vedar caixas d’água e eliminar água parada é decisivo para quebrar o ciclo do mosquito”, ressalta.
Dados
Com foco na prevenção, mais de 360 servidores da Vigilância Ambiental em Saúde visitaram cerca de 1,8 milhão de residências no DF em 2025 e notificaram aproximadamente 25 mil ocorrências suspeitas de dengue, sendo 12 mil casos prováveis. O número representa redução de 96% em comparação com o mesmo período de 2024, quando foram registrados 278 mil casos prováveis no Distrito Federal.
Neste ano, até a Semana Epidemiológica 05, foram notificados 1.132 casos suspeitos de dengue em residentes do Distrito Federal, dos quais 616 eram prováveis. Entre os casos prováveis, sete foram confirmados.
Os Núcleos Regionais de Vigilância Ambiental em Saúde da SES-DF atuam na prevenção e no controle de fatores ambientais que impactam a saúde da população, com monitoramento de riscos de zoonoses, como dengue, leishmaniose e raiva; controle de vetores, como mosquitos e escorpiões; análise da qualidade da água; e realização de ações educativas voltadas à prevenção de doenças. As atividades são executadas de acordo com a demanda de cada região administrativa.
Combate ao mosquito
As ações de enfrentamento às arboviroses são realizadas de forma ininterrupta, abrangendo residências e locais públicos. Entre as estratégias utilizadas está a Borrifação Residual Intradomiciliar (BRI), tecnologia que cria uma camada protetora nas paredes internas, capaz de eliminar os mosquitos que pousam nesses locais. O produto apresenta baixa toxicidade para humanos e animais domésticos. Em 2025, foram feitas quase 60 aplicações da BRI, principalmente em locais com grande circulação de pessoas, como rodoviárias e feiras.
Outra importante ferramenta de prevenção são as estações disseminadoras de larvicidas (EDLs). Cada unidade é composta por um balde preto, com boia e tela ao redor, impregnada com Pyriproxyfen — inseticida que atua como hormônio regulador do crescimento de insetos, impedindo que atinjam a fase adulta. Mais de 3,2 mil EDLs foram instaladas em diferentes regiões do DF no ano passado.
As ovitrampas também tiveram papel fundamental no monitoramento e controle das arboviroses. Em 2025, as equipes de vigilância instalaram mais de 3,8 mil armadilhas. Nelas, um pote preto com água e levedo de cerveja estimula os mosquitos a depositarem seus ovos em uma placa de fibra de madeira (paleta) e na parede do recipiente. Embora as armadilhas se assemelhem a criadouros, são seguras, pois recebem inseticida para impedir o desenvolvimento das larvas.
Além das ações em solo, a SES-DF incorporou drones no enfrentamento às arboviroses. Os equipamentos auxiliam no mapeamento de territórios mais críticos. As imagens captadas indicam locais com possíveis focos de água parada, permitindo intervenções mais precisas. Ao todo, os drones realizaram varredura em 22 regiões administrativas, totalizando mais de 2,1 mil hectares mapeados e cerca de 3 mil possíveis criadouros identificados.
Outra frente de atuação inovadora foi a liberação dos wolbitos, mosquitos Aedes aegypti inoculados com a bactéria Wolbachia, que impede o desenvolvimento dos vírus de doenças como dengue, zika, febre amarela e chikungunya. Os insetos com a Wolbachia se reproduzem com os exemplares selvagens, transmitindo a bactéria às próximas gerações. No DF, o programa registrou 14 semanas de produção e 13 de liberação de aproximadamente 13 milhões de “mosquitos amigos”. Nesse período, as ações de campo envolveram 68 rotas semanais, 14 mil pontos de soltura e 813 viagens para distribuição dos insetos em todo o território previsto.
Os agentes de vigilância ambiental da SES-DF receberão, no próximo mês, 683 tablets com caneta digitalizadora e pacote de dados móveis para substituir as fichas em papel. Com o equipamento, o registro das atividades passará a ser feito diretamente em aplicativos e sites oficiais. Os dispositivos vão agilizar o serviço, reduzindo retrabalho e minimizando o risco de perda de informações.
Vacinação
Até o momento, quase 222 mil doses da vacina contra a dengue foram aplicadas em crianças e adolescentes de 10 a 14 anos no Distrito Federal. O imunizante previne formas graves da doença e está disponível nas salas de vacina da rede pública de saúde. No total, cerca de 312 mil doses foram aplicadas, considerando todos os públicos nas redes pública e privada. Apesar dos números expressivos, a vacinação contra a dengue ainda não alcançou a cobertura ideal.
*Com informações da Secretaria de Saúde (SES-DF)
Fonte: Agência Brasília
